É com grande júbilo e em clima de festa que hoje venho ao blog postar apenas uma música, sem mensagem minha. Há canções que não precisam ou não merecem uma reflexão, porque falam por si só.
Peço que acessem o vídeo com a música "Ressuscitou" da Comunidade Católica Shalom e rezem, louvem e a adorem o Senhor Jesus Cristo Ressuscitado neste dia tão maravilhoso! Rezando com a letra, internalize em sua vida a glória que celebramos neste dia!
Hoje deixo um texto sumamente belo, que nos explica o sentido do silêncio do Sábado Santo. Este dia que sucede à Paixão do Senhor é de extrema importância para a nossa fé: Jesus desceu à mansão dos mortos. Leia, deguste este texto e, ao final, ouça a já conhecida música; qualquer semelhança entre o texto e a canção não é mera coincidência, e seu conteúdo serve para cada um de nós. De qual treva o Cristo precisa nos tirar?
"Jesus na mansão dos mortos, segurando as mãos de Adão e Eva, para reconduzi-los ao paraíso."
Deixo que a Liturgia da Igreja fale hoje. Segue o texto mais precioso que conheço.
De uma antiga homilia no Grande Sábado Santo - Século IV
A DESCIDA DO SENHOR À MANSÃO DOS MORTOS
Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.
Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos.
O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, o nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: "O meu Senhor está no meio de nós!" E Cristo respondeu a Adão: "E com o teu espírito!" E tomando-o pela mão, disse: "Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará!
Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceram de ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: 'Saí!'; e aos que jaziam nas trevas: 'Vinde para a luz!'; e aos entorpecidos: 'Levantai-vos!'
Eu te ordeno: acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa.
Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado.
Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida.
Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso.
Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti.
Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus.
Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade."
Hoje não tenho nada a dizer, mas muito a contemplar. Choro a paixão do Senhor porque meus pecados o chicotearam naquele dia, em que suas dores foram maiores que meus vexames espirituais. Grito por socorro a quem já não tem aparência humana, pois desfigurado foi pelas chibatadas, pelo coroamento de espinhos e pelos cravos da cruz. Mesmo gritando de dor, o Pai não o ouviu, não o poupou para que eu tivesse vida.
"Vida da minha vida, morte da minha morte, carne da minha alma. Não quero mais te trair. Dá-me, pelos méritos de tua paixão, a conversão mais verdadeira, aquela que me levará e me deixará esguio diante da cruz. Ó Maria, Mãe das Dores e da Esperança, roga por mim. Amém!"
Posto esta música que, a meu ver, é o mais perfeito canto a Jesus Crucificado.
BELÍSSIMO ESPOSO
Comunidade Católica Shalom
Beijo a tua paixão que me liberta das minhas paixões, beijo a tua cruz
que condena e esmaga o pecado em mim.
Beijo teus cravos, tuas mãos, que apagam o castigo do mal, beijo tua ferida
que curou a ferida do meu coração.
Eu te beijo, Senhor, e a tua paixão, é o meu tudo!
És meu tudo, Jesus, amado de minh'alma!
Ó, Belíssimo Esposo, mais belo que todos os homens
Santo, santo és tu!
Belíssimo Esposo, esconde-me em teu lado aberto
em tua chaga de amor, de amor!!!
Beijo a lança que abriu a fonte do Amor imortal, a fonte do Amor sem fim
que pagou o que eu não poderia pagar.
Beijo o teu lado aberto, jorrando rios de vida e de paz, fazendo brotar em mim
um canto novo, um hino esponsal.
Beijo tuas vestes que esconderam minhas misérias
Vergonha não há, me adornas com amor!
Ó, Belíssimo Esposo, mais belo que todos os homens
Santo, santo és tu!
Belíssimo Esposo, esconde-me em teu lado aberto
em tua chaga de amor, de amor!!!
Beijo os lençois que envolveram o teu corpo ferido de amor, e cobriram meu coração,
revestiram-me de realeza!
Beijo o teu santo sepulcro, testemunha da ressurreição, quero ressuscitar também
e encerrar-me dentro de ti!
Quero em ti mergulhar e então renascer da tua chaga criadora,
descansar a minh'alma em teu coração!
Ó, Belíssimo Esposo, mais belo que todos os homens
O que dizer de um sofrimento que gera vida, de onde brota toda a graça e todo bem? Nesses dias que antecedem a experiência anual da Cruz do Senhor, não consigo pensar muito para escrever. As chibatadas, a coroa de espinhos, os cravos e a lança já falam por si mesmos. Os escárnios dos soldados e os insultos do povo que gritava "Crucifica-o" são igualmente dolorosos.
O fato é que hoje as pessoas não se importam mais com a cruz. O sofrimento de Cristo já não é amado, seus gritos já não são ouvidos e sua dor já não faz mais sentido. Hoje se tem dinheiro, comida, casa, trabalho, conhecimento, lazer. A paixão de Cristo já não importa mais. O que eu tenho a ver com a condenação de um homem que morreu escarnecido há mais de dois milênios?
O fato é que, ao passo que cresce o desenvolvimento humano, cresce também a ausência da simplicidade. Sem humildade é difícil ter fé. Só quem é humilde pode usufruir plenamente dos benefícios da graça de Deus, que requer muito da fé para ser obtida. Falta-nos amor, humildade, reconhecimento, gratidão. Falta-nos simplicidade, aquela que nos faz amar mais o descompromisso com o supérfluo e nos unir a Deus sem reservas, de modo a alcançar a liberdade inteira pela união com a divindade.
As pessoas acham que não precisam mais de Deus. Muitas tem certeza mesmo. Conheço pessoas que são capazes de curtir publicações de reality shows e me rechaçar por eu postar coisas de Deus. E algumas são pessoas que se dizem católicas! Não entendo como as pessoas hoje tem a coragem de não permitir que as dores de Jesus alcancem seus corações. Não mesmo.
Às vésperas do Tríduo Pascal, que se inicia amanhã com a solene celebração da Ceia do Senhor e Lava-pés, passando pela Paixão na sexta-feira e culminando na noite santa da Vigília Pascal no sábado santo, carrego dentro de mim uma tristeza muito grande, uma decepção por não conseguir fazer muito pelo Evangelho.
Eu sinto, vivo, curto, canto o amor de Deus, mas não consigo encaixá-lo plenamente por faltar com a proclamação do Evangelho a partir da minha vida. Eu queria carregar a cruz com Cristo, ser Dele inteiramente até me esgotar todo. Mas não. Estou sufocado demais para respirar ares puros de salvação. Estou vendado pelas falsas maravilhas do mundo, que me atraem de forma massacrante, minando minhas forças para resistir. Sou fraco, eu sei. Muito fraco. Isso me faz admirar ainda mais a força e a coragem de Jesus, que encarou a cruz como esposa e a amou plenamente. A morte foi apenas uma consequência da renúncia total à sua personalidade.
Ele não pensou em si mesmo; eu sempre penso em mim mesmo. Ele não fez contas de sua importância, eu quero ser sempre considerado importante. Ele foi ultrajado, e eu quero ser elogiado. Ele foi ferido, e eu quero ser curado. Ele foi escarnecido, eu quero crescer na vida. Ele me amou acima de tudo, e eu não retribuo nem com um sincero agradecimento. Peço o milagre, mas não possuo Aquele que pode realizá-lo.
A verdade, nua e crua, é que eu preciso tomar vergonha na cara. Já passou da hora de iniciar o processo de conversão, tão necessário para quem quer assumir o nome de cristão. Não sou digno dele. Para colocar uma cruz na frente do nome eu preciso caminhar muito ainda.
Ir ao encontro de Cristo Crucificado é ir ao encontro dos pais com um sorriso que os converta; é dar uma ajuda a um irmão (de sangue ou não), quando ele realmente precisa; é dar um alimento a quem tem fome; é ouvir algum comentário que desagrade e responder com um sorriso (vale pela internet também). Subir com Cristo ao Calvário é suportar as diferenças religiosas, obedecer a palavra dos ministros ordenados, mesmo quando eles estão obviamente errados ou em desobediência à Santa Madre Igreja; é promover o bem a quem só deseja o mal; é responder com carinho a uma provocação ou indagação que sugira uma ação perseguidora.
Sim, Cristo morreu por causa do meu pecado, no singular mesmo, para não ter que relatar um por um. Teria que fazer outro blog para expô-los todos. Meu pecado crucificou o Senhor e continua crucificando-o até hoje, pois seu Coração Sagrado continua a bater, mesmo chagado pela lança das minhas negações.
Quero me converter, mas me falta a coragem para isso. Quero ter a realização da salvação, garantida pela cruz de Cristo, mas o mundo me prendeu. Ele, no entanto, com suas mãos poderosamente chagadas e libertadoras, pode me devolver a graça para a qual fui criado, que é justamente a de ter genuinamente o nome mais gracioso da humanidade: cristão.
Que a morte de Cristo Crucificado nos devolva a vontade de sermos inteiramente Dele.
Cante e reze com a canção "Por amor", dos Anjos de Resgate.
Menino tímido, acanhado, pacato mesmo, não se intrometia nos
assuntos dos colegas, nem jogava bola na rua; não subia em árvores, porque
tinha medo de altura. Não pegava traseira de caminhão, nem descia a principal
rua do bairro em carrinho de rolimãs. Andou pouco de skate, muito de bike e
roller. Gostava de soltar papagaio e brincar nas fazendas, que hoje abrigam
enormes condomínios.
Família pequena, trinitária, mas extensa em tios e primos,
aqueles parentes que se veem de vez em quando. Avós, materna e paterna, supriam
com maestria a falta dos avós materno e paterno, ausentes já desde a infância.
Alguns tios próximos, outros distantes, geográfica e sentimentalmente.
Menino comportado, que não dava trabalho na escola e, quando
tomou uma ocorrência por culpa alheia, chorou dias a fio. A única vez em que
não pertenceu à classe de elite e foi parar na 4ª Série C, achou que fosse a
maior decepção possível na vida de algum mortal.
A professora pegou o caderno do menino, nessa mesma época, e
mostrou à turma como era “esgarranchado”, e ele sofreu com a zombaria dos
colegas. Passou o resto do ano treinando caligrafia para melhorar a letra. Não
aceitava ter uma letra feia, ilegível.
O menino foi crescendo, tentando ser o que queriam, e não o
que realmente era. Os sofrimentos dos tempos presentes aumentavam a cada dia,
por não entender a si como um ser simplesmente, e por achar que seria um ser
complexo demais para poder viver. Achava que não era digno do mundo.
O perfeccionismo é sempre massacrante, e traz sofrimentos
desnecessários. Não poder errar é uma imposição pesada demais para dar a si
mesmo, e ninguém merece carregar pacotes mais pesados que os comprados. Há
carrinhos nos supermercados com alguma finalidade: o importante é levar o
pacote, não importa como.
O menino, no entanto, temia não carregar os fardos que lhe
eram impostos e ser cobrado por isso, mas era. Queria ter forças para levá-los
adiante, mas não podia mediante sua condição franzina. Não lhe deram os pacotes
apropriados à idade e sempre caíam ao chão, provocando certo estrago.
Hoje o menino cresceu e pôde olhar para trás. Viu que todos os pesos passados eram frágeis diante de sua força de hoje. O problema agora
são os fardos que ele conquistou para si mesmo, ainda mais pesados que os
pacotes da meninice. Os amigos sabem quem realmente é o menino.
E se o que vivo hoje fosse apenas uma ilusão de um ontem infantil, na incerteza de um maduro fim de tarde de 30 de fevereiro? Se hoje as horas extrapolassem as 23:49 e fossem até 24:59, eu não ligaria. Estaria da mesma forma como vivo esse hoje embaralhado.
Gosto de baralhos. Posso mover as cartas livremente, escondê-las sob a mesa ou distribuí-las igualmente. Uma coisa é certa: nunca posso ficar com todas pra mim. Sempre há uma esperança de ter a carta certa, ou a certeza de que a jogada não é mais que uma questão de sorte misturada com estratégia.
Os segundos passam, os minutos passam, as horas, os dias, os meses, os anos e os séculos. Milênios não permanecem estáticos, como se ignorassem a necessidade da passagem. Nada permanece.
O que sou é muito mais que um 30 de fevereiro ou um dia com 25 horas. Sou muito mais inexato que uma conta de 2 + 2 = 5. Quando somo eu comigo mesmo, sempre encontro 3. Eu, eu mesmo e um nada. Prefiro a conta de 1 + 1 = 1, sendo Eu e Deus que me transforma nele, dando o mesmo resultado.
Não gosto de números. Eles são exatos demais para o meu excesso de subjetividade. A exatidão não me pertence. Moro em uma casa sem endereço certo, como um "trailler" que pode ser movido de um lugar a outro sem prévia comunicação.
Não faço contas de mim mesmo, para que eu não corra o risco de encontrar os resultados. Mas gosto de correr ao meu próprio encontro, pois sempre bato de frente comigo e, às vezes, ensaio um abraço que nunca acontece. Olhar em meus próprios olhos é uma ilusão de ótica, porque tento fingir que a imagem que vejo do outro lado seja algo melhor, mas sou eu mesmo.
Sou incompleto e não me importo com isso, embora tenha uma dificuldade imensa de aceitar a imperfeição alheia. A crise do outro me diverte, quando já não sei claramente quem sou eu, com todas as minhas imperfeições. A hipermetropia me tolhe a nitidez das almas.
Sei que não sou tão fraco quanto eu gostaria de ser, nem tão forte quanto precisaria ser, mas vejo bem de longe, e mal de perto. O infante de amanhã é inversamente proporcional ao adulto de ontem. Não posso ser uma vítima exata, desde que me consuma. Também não gosto de rótulos, que me identifiquem pelo que eu não sou. Não gosto de propaganda enganosa, pois acho injusta.
Sou injusto demais comigo mesmo para entender que fevereiro só tem 29 dias a cada quatro anos, e que seu curso normal só permite 28 curvas. Sei também que ao dia pertencem apenas 24 horas; o que passa disso é ensaio de semana. 2 + 2 serão sempre iguais a 4. 5 já é lucro.
O que falta em mim posso chamar de Eduardo, e o que sobra eu chamo Deus. A única desvantagem é que, nesta razão, sempre perco para um número eternamente superior ao meu limitado 1.
Abaixo, canção "Obra viva", da Madre Kelly Patrícia.